
As pessoas continuam tendo de procurar os livros que compram

O mercado editorial vende como poucas vezes vendeu, em todo planeta. Titãs da internet atual, como Amazon e Apple, fazem fortunas com ele. No Brasil, vê-se esse furor no aumento de cursos ligados à área editorial (universitários, técnicos e livres), no aumento das feiras literárias, na expansão das grandes livrarias, na difusão das máquinas de vender livros, no sucesso dos livros que viram blockbusters, no surgimento de mais editoras de nicho etc. No estrangeiro, o cenário é semelhante ou melhor. Na internet, é sintomático o crescimento de serviços como o Scribd, Google Livros, redes peer-to-peer e sites sobre e para o mercado editorial. Mas, em suma, e ao pesar da aparente contradição, as pessoas continuam tendo de procurar os livros que compram, pois estes continuam a ser vendidos nos mesmos lugares (livrarias) e não-lugares (internet). Meu ponto é que isso deve mudar.
Se você comprará uma coisa, pode comprar duas

Ao manter os livros isolados do quotidiano das pessoas, as editoras deixam de conseguir duas importantes fontes de renda: vendas por impulso e venda por associações, estratégias bem-sucedidas em varejos vários. A despeito de discussões éticas que estimular a venda por impulso tem, vender por associações só roça dilemas morais de autores e editores.
Quem é instruído em um assunto específico sabe quais livros de tal assunto ler: é o comprador para o qual o (não-)lugar especializado serve bem e deve existir. Porém, a maioria das pessoas é instruída em poucos assuntos, e há até aqueles que não são instruídos em nenhum, não obstante achariam bom sê-lo em um ou outro: ambos são os prováveis compradores motivados por associações.
Fazer associações pertinentes entre um produto e outro é algo que vale muito, bilhões, no caso dos algorítmos do Google e do Facebook (links patrocionados) e da Amazon (indicações). No dia-dia, digamos em oposição ao digital, físico, prever um padrão de consumo costuma ser bem-vindo: o médico, advogado, dentista, mecânico da família, o mecânico de sempre, a vendedora de sempre etc. Poupa-se tempo quando um profissional antecipa-se ao que precisamos, àquilo que nem precisamos tanto e àquilo que não sabemos ainda que precisamos. No supermercado, dispor o molho de tomate perto do macarrão, queijo ralado e vinho é obrigatório. Na vídeo-locadora, filmes do mesmo diretor, ator principal ou temática sazonal (Natal, Halloween) estão no mesmo espaço. No posto de combustível, confere-se os fluídos do motor enquanto abastece-se. Na sala de concerto, há discos, livros e lembranças da estrela do dia. A tônica é: se você comprará uma coisa, pode comprar duas.
Vinho tinto seco serve bem com carne de cordeiro

O ponto de partida é que mais pessoas comprem mais livros, não é mudar o mundo (para melhor ou pior), embora isso talvez acontecessem com mais pessoas comprando mais livros. Em oposição, acreditar que o livro apenas deve estar em um santuário especializado, livraria física ou digital, é resquício dos séculos em que o livro possuía valor material vultuoso, além de confortável para os donos de tais santuários. Hoje, em que a economia dos bytes tem preço, quase sempre, zero, ainda onera o livro sua importância imaterial, como realização (nobre) do intelecto humano. Não obstante a maioria dos livros ser ruim, pois é da natureza do bom ser exceção, autores, editores e leitores ganhariam com a desmitificação do livro e sua maior difusão. Isso vale também para livros que representam o melhor da espécie.
Poder-se-ia afirmar que fazer associações entre produtos tidos por artistas como banais é mais simples. Discordo citando profissionais que respiram o fazer artístico mas precisam se comunicar com seus clientes da maneira que eles os entendam: enólogos, que recomendam o objeto de estudo de suas vidas à necessidade basal que é comer, e arquitetos, que fazem habitações que, belas ou não, precisam servir para o banho diário. Onde uma pessoa que não conhece o vencedor do Nobel de Literatura de 2011 pode comprar seu livro? Na seção de Bergman da vídeo-locadora, poucas. Comprando pão sueco, outras poucas. Em loja de artigos esportivos que promova o DVD da Copa de futebol de 1958 por ocasião da de 2014, outras poucas mais. Para a matemática, um livro vendido em livraria especializada é menos que dois livros cuja venda é oriunda de um site com fotos de modelos fotográficas suecas que posam para um calendário de empresa italiana. Quero dizer, importa é vender mais para mais pessoas. Refiro-me a vender livros em lugares quaisquer mesmo, a aumentar o mercado dos livros, mas também em descentralizá-lo. As livrarias seguirão servindo a quem compreende a relevância atual da lírica contemporânea sueca, o que é salutar, a quem tem curiosidade por ver a relação de livros com livros, e sendo um provável próximo local de compra para o não-especialista, mas não o único. Um biógrafo por encomenda que trabalhe em uma cidade muito pequena, como o são a maioria das cidades do Brasil, pode vender seus livros e seu serviço de escritor no ponto comercial mais freqüentado da cidade, comumente, um bar, e, portanto, já pode prescindir das grandes livrarias físicas e digitais.
Só vejo vantagens em haver livros sobre a história do motor a combustão em uma borracharia, tal qual livros sobre a relação do desmatamento da Amazônia com o Ciclo da Borracha, livros sobre esporte a motor, livros de física básica, sobre projeto e desenho de veículos auto-motores, sobre a história do século XX, sobre a dengue… Aumentaria o consumo de livros, bons e ruins, não importa, se estes saltassem aos olhos das pessoas e dissessem “você acha que não sabe quem eu sou, mas eu sou algo que você já sabe o que é”. Afeta o padrão de consumo viver relações entre coisas e idéias, e o livro na livraria só se relaciona com o livro na livraria. Uma pessoa pode ser abstêmia e vegetariana mas saber que vinho tinto seco serve bem com carne de cordeiro, e um dia comprar vinho tinto seco ou carne de cordeiro.
(Thiago Rocha)